Carreira
Por que estudar mais não vai resolver sua insegurança clínica

Sirlene Xavier
Psicóloga Clínica
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O alívio dura pouco
Um curso novo alivia por um tempo curto. Você aprende uma técnica, se sente mais segura por algumas semanas, e a insegurança reaparece assim que surge um caso que a formação não previu. O padrão se repete porque, nesse contexto, estudar funciona como forma de adiar o contato direto com a incerteza da prática. Em vez de testar se você dá conta do caso difícil, você estuda mais um pouco antes de testar.
Na terapia cognitivo-comportamental isso tem nome: comportamento de segurança. Uma ação que reduz a ansiedade na hora, mas impede a pessoa de descobrir que conseguiria lidar com a situação sem ela. Checar o celular repetidas vezes antes de uma reunião importante segue a mesma lógica: o alívio chega rápido, e a crença de que "não estou pronta" nunca chega a ser testada, então nunca é desconfirmada.
O que sustenta a insegurança
A prática clínica tem uma característica difícil de contornar: o feedback demora, é ambíguo e quase nunca é definitivo. Um paciente melhora por motivos que não têm relação direta com a sua intervenção. Outro piora mesmo com uma condução tecnicamente correta. Diferente de uma prova, a clínica não devolve um gabarito no fim da sessão.
Essa lacuna abre espaço para a dúvida crescer. Sem colegas por perto durante o atendimento, sem supervisão constante, sem um jeito simples de revisar o próprio trabalho ao longo do tempo, fica difícil separar duas coisas: "não tenho certeza absoluta", parte esperada do trabalho clínico, de "não sou capaz", a interpretação que mais dói.
O que muda essa sensação
Supervisão devolve o feedback que a prática sozinha não oferece. Alguém com mais experiência olha seu caso e nomeia o que está funcionando, o que precisa de ajuste, e o que é incerteza inerente ao trabalho, não erro seu.
Revisar seus próprios atendimentos ao longo do tempo produz um efeito parecido. Voltar a uma evolução de três meses atrás e perceber como você conduziu um caso semelhante dá um tipo de prova concreta que nenhum curso oferece: a prova de que você já lidou com aquilo antes.
Tolerar a incerteza por um instante, sem agir de imediato para eliminá-la, também ajuda. Só ficando nela por um pouco você descobre que consegue seguir a sessão mesmo sem saber com certeza o que vem a seguir.
Onde a rotina entra nisso
Parte do desgaste que alimenta a insegurança não vem da clínica. Vem de nunca conseguir revisar o próprio trabalho porque os registros estão espalhados ou escritos correndo antes da sessão seguinte. Sem um histórico organizado, cada atendimento parece começar do zero, e fica mais fácil duvidar do próprio critério.
Manter as evoluções em dia e acessíveis não substitui supervisão nem formação. Libera tempo e atenção pra fazer as duas coisas com mais cuidado, e pra estudar o que falta em vez de estudar por hábito.
Perguntas frequentes
A insegurança clínica é normal na psicologia? Sim, principalmente nos primeiros anos de prática e diante de casos fora da experiência acumulada. Sentir insegurança faz parte do trabalho. Tentar resolvê-la só com mais teoria, quando ela pede outro tipo de resposta, é o que trava o processo.
Fazer mais cursos ajuda em algum momento? Ajuda quando cobre uma lacuna técnica identificada em supervisão ou na prática. Deixa de ajudar quando vira uma forma automática de adiar o contato com um caso que deixa insegura.
Como saber se preciso de supervisão ou de mais estudo? Se a teoria já está dominada e a insegurança aparece mesmo assim diante do paciente, o problema costuma ser de aplicação, não de conhecimento. Supervisão resolve isso melhor do que um curso novo.
Se a insegurança nasce, em parte, da falta de espaço pra revisar o próprio trabalho, vale organizar essa ponta da rotina primeiro. A Fluven mantém agenda, prontuário e evoluções em um único lugar, com histórico fácil de consultar antes de cada sessão.

Sirlene Xavier
Psicóloga Clínica
Psicóloga pós-graduada em Terapia Cognitivo-Comportamental e CEO da Fluven