Carreira

Síndrome do impostor na clínica: por que ela não passa com mais certificado

Você recebe um retorno positivo de um paciente e pensa que foi sorte, ou que qualquer outra pessoa teria feito o mesmo. Erra uma condução e a lembrança fica meses. Isso não é falta de competência. É um jeito específico de interpretar a própria competência.

Você recebe um retorno positivo de um paciente e pensa que foi sorte, ou que qualquer outra pessoa teria feito o mesmo. Erra uma condução e a lembrança fica meses. Isso não é falta de competência. É um jeito específico de interpretar a própria competência.

Sirlene Xavier

Psicóloga Clínica

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O que é a síndrome do impostor

O termo nasceu em 1978, num estudo das psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes sobre mulheres de alto desempenho que, mesmo com histórico consistente de sucesso, se sentiam fraudes prestes a ser descobertas. A característica central não é a falta de competência real. É um padrão de atribuição: sucesso vira sorte, esforço ou ajuda externa; erro vira prova definitiva de incapacidade.

Na clínica, esse padrão encontra terreno fértil. Um bom resultado terapêutico depende de fatores fora do controle da psicóloga: motivação do paciente, contexto de vida, timing. Isso deixa espaço aberto pra interpretar qualquer melhora como algo que não foi mérito seu, enquanto qualquer dificuldade é lida como prova de despreparo.

Por que mais formação não resolve

Formação ataca um problema de conhecimento. A síndrome do impostor não é um problema de conhecimento; é um problema de como a evidência de competência é processada. Uma psicóloga com dez anos de prática e vários cursos concluídos pode continuar descontando cada elogio e ampliando cada erro, porque o mecanismo que distorce a leitura da própria competência segue intacto, independente de quanto conteúdo técnico se acumula.

Isso explica por que a sensação costuma piorar, não melhorar, depois de uma conquista visível: um curso concluído, uma especialização, um primeiro consultório próprio. Cada novo patamar de responsabilidade reabre a pergunta "e se eu não for capaz disso", e o padrão de atribuição distorcida volta a atuar sobre uma base mais alta.

O que muda a leitura da própria competência

Registrar, de forma breve, o que funcionou numa sessão e por quê, não só o que precisa melhorar, cria um contraponto concreto ao hábito de descontar o que deu certo. Isso não é otimismo forçado; é dado, revisável mais tarde, quando a memória distorcida por atribuição já tiver apagado os detalhes.

Falar sobre a sensação de fraude com outra psicóloga, numa supervisão ou numa troca entre pares, costuma revelar que ela não é exclusividade de quem está começando. Colegas experientes relatam o mesmo padrão, o que ajuda a separar "eu especificamente não sirvo pra isso" de "esse é um jeito comum de interpretar competência nessa profissão".

Perguntas frequentes

A síndrome do impostor tem diagnóstico formal? Não. É um fenômeno psicológico descrito na literatura, não uma categoria diagnóstica, mas isso não diminui o impacto real que tem na prática clínica de quem convive com ela.

Psicólogas experientes também sentem isso? Sim. O padrão tende a reaparecer a cada novo patamar de responsabilidade, mesmo depois de anos de prática consolidada.

Terapia ajuda com a síndrome do impostor? Pode ajudar, principalmente quando o foco é o padrão de atribuição por trás da sensação, e não só o acúmulo de mais conhecimento técnico.

Revisar sessões antigas ajuda a enxergar o próprio progresso com mais clareza do que a memória sozinha permite. Na Fluven, o histórico de evoluções fica organizado e fácil de consultar, pra você ter esse contraponto concreto quando a sensação de fraude aparecer.

Sirlene Xavier

Psicóloga Clínica

Psicóloga pós-graduada em Terapia Cognitivo-Comportamental e CEO da Fluven