Tecnologia & IA

IA para psicólogos: guia ético e prático para transcrição, resumo e prontuário

Entenda como psicólogos podem usar inteligência artificial de forma ética e segura em transcrição de sessões, resumos e prontuários. Veja os principais cuidados com sigilo, consentimento, LGPD, revisão profissional e os limites entre apoio operacional e decisão clínica.

Entenda como psicólogos podem usar inteligência artificial de forma ética e segura em transcrição de sessões, resumos e prontuários. Veja os principais cuidados com sigilo, consentimento, LGPD, revisão profissional e os limites entre apoio operacional e decisão clínica.

Sirlene Xavier

Psicóloga clinica

·

Gravar uma sessão, receber a transcrição alguns minutos depois e usar inteligência artificial para organizar os principais pontos do atendimento parece uma solução óbvia para uma das partes mais cansativas da rotina clínica: terminar o dia ainda com vários registros para fazer.

E, de fato, a IA pode ajudar.

O próprio Conselho Federal de Psicologia reconhece a possibilidade de usar inteligência artificial como apoio à organização, redação, padronização e sistematização de registros e documentos psicológicos. A questão não é simplesmente “psicólogo pode usar IA?”, mas como usar, para quê e em quais condições.

Quando uma ferramenta entra em contato com a gravação de uma sessão, uma transcrição ou informações de prontuário, ela deixa de ser apenas um recurso de produtividade. Estamos falando de dados sobre saúde, história de vida, relações familiares, sexualidade, conflitos e outras informações que podem ser altamente sensíveis.

Por isso, há uma diferença enorme entre pedir a uma IA para revisar a escrita de um texto genérico e enviar a ela uma sessão inteira de psicoterapia.

Neste guia, vamos separar essas situações e entender, na prática, como usar IA em transcrição, resumo e registro psicológico sem terceirizar aquilo que continua sendo responsabilidade do profissional.


Antes de tudo: o CFP permite que psicólogos usem inteligência artificial?

Sim.

No Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos, publicado em 2025, o CFP responde diretamente a essa pergunta. A inteligência artificial pode auxiliar em tarefas como:

  • melhorar clareza e formatação da escrita;

  • sugerir estruturas para documentos;

  • sistematizar informações de entrevistas, escalas e observações;

  • organizar relatórios extensos.

Mas existe um limite importante: a IA deve funcionar como ferramenta de apoio, e não como substituta do julgamento profissional. Avaliação, análise crítica, conclusões e decisões clínicas continuam sendo atribuições da psicóloga ou do psicólogo.

Esse ponto ajuda a organizar praticamente toda a discussão.

A pergunta mais útil não é:

“Posso usar IA?”

É:

“Qual parte desse trabalho estou delegando à IA?”

Transformar áudio em texto é uma coisa.

Organizar informações que já existem é outra.

Decidir que determinado comportamento confirma uma hipótese diagnóstica é outra completamente diferente.

Quanto maior o julgamento clínico envolvido, menor deve ser a autonomia concedida ao sistema.


Transcrição, resumo e prontuário não são a mesma coisa

Essa distinção é especialmente importante porque essas três etapas às vezes aparecem misturadas dentro de uma mesma plataforma.

Imagine esta sequência:

Sessão → gravação → transcrição → resumo → registro psicológico


A tecnologia pode participar de várias etapas, mas cada uma tem uma função diferente.


Etapa

O que é

Principal cuidado

Transcrição

Conversão da fala em texto

sigilo, consentimento e erros de transcrição

Resumo por IA

Organização e redução do conteúdo da sessão

omissões, interpretações indevidas e informações inventadas

Prontuário/registro

Registro profissional do trabalho realizado

seleção clínica das informações e responsabilidade do psicólogo

Uma transcrição não é prontuário.

Um resumo automático também não deveria ser tratado automaticamente como prontuário.

E essa diferença não é apenas conceitual.

O Manual do CFP é bastante claro ao afirmar que a transcrição literal da sessão não corresponde ao registro da evolução do atendimento. O registro deve apresentar uma síntese das informações relevantes sobre o serviço realizado e os procedimentos técnico-científicos adotados.

Isso significa que ter uma transcrição completa pode ajudar o profissional a lembrar da sessão. Mas copiar aquela transcrição para o prontuário seria outra coisa — e, na maior parte dos casos, registraria muito mais informação do que o necessário.


1. IA para transcrever sessões: pode?

Pode, mas essa é provavelmente a utilização que exige mais cuidado.

Em seu Guia para uma prática ética e responsável da Inteligência Artificial na Psicologia, o próprio CFP usa a transcrição automática de sessões como exemplo.

O cenário apresentado é o de uma psicóloga que grava uma psicoterapia, envia o áudio para uma ferramenta de IA e permite que os dados sejam armazenados em nuvem sem informar adequadamente a pessoa atendida.

Entre os problemas apontados estão:

  • erros na identificação de nomes e expressões;

  • alteração do sentido de algumas falas;

  • armazenamento do áudio;

  • ausência de garantias sobre a utilização desses dados para treinamento de modelos;

  • falta de informação e consentimento da pessoa atendida.

Portanto, a pergunta não deve ser apenas:

“A ferramenta transcreve bem?”

Antes disso, é preciso perguntar:

“O que acontece com essa sessão depois que eu aperto gravar?”


O paciente precisa saber que a sessão está sendo gravada?

Sim.

A orientação mais recente do CFP é especialmente clara nesse ponto: em situações de gravação e transcrição de atendimentos por IA, o consentimento deve ser prévio, específico e registrado, e a pessoa atendida deve compreender a finalidade e as limitações do uso da tecnologia.

Isso é diferente de simplesmente colocar uma frase genérica sobre “uso de tecnologia” no contrato terapêutico.

A pessoa precisa saber, de forma compreensível, por exemplo:

  • que haverá gravação;

  • para qual finalidade;

  • que o áudio poderá ser processado por uma ferramenta tecnológica;

  • se uma transcrição será produzida;

  • como essas informações serão protegidas;

  • por quanto tempo o áudio será mantido, quando aplicável;

  • quem poderá acessar o conteúdo.

Uma boa regra prática é imaginar a seguinte pergunta:

Se o paciente soubesse exatamente o caminho que o áudio percorre depois da sessão, ele ainda estaria confortável em autorizar?

Se nem o próprio profissional consegue explicar esse caminho, provavelmente ainda falta entender melhor a ferramenta utilizada.


2. Não escolha uma ferramenta de IA apenas pela qualidade da transcrição

Há softwares que produzem transcrições excelentes e que ainda assim podem ser inadequados para uso clínico.

Antes de utilizar uma plataforma que processará sessões, vale investigar pelo menos estas questões:

  1. Os dados são utilizados para treinamento de modelos de IA?

  2. Existe uma opção contratual que impeça esse uso?

  3. Por quanto tempo os áudios e transcrições são armazenados?

  4. É possível apagar definitivamente esses arquivos?

  5. A empresa informa quais terceiros ou subprocessadores têm acesso aos dados?

  6. Onde os dados são armazenados e processados?

  7. Há criptografia durante transmissão e armazenamento?

  8. Como funciona o controle de acesso às informações?

  9. Existe registro de acessos e medidas para incidentes de segurança?

  10. Os termos da empresa contemplam confidencialidade e tratamento de dados sensíveis?

Esse tipo de análise é importante porque informações relacionadas à saúde são consideradas dados pessoais sensíveis pela LGPD, sujeitos a proteção reforçada. A legislação também exige medidas técnicas e administrativas para proteger dados contra acessos não autorizados, perda, alteração ou divulgação indevida.

Não basta, portanto, que a ferramenta diga simplesmente que é “segura”.

É preciso entender segura como, para quem e para qual uso.


3. Posso colocar informações de pacientes no ChatGPT, Gemini ou outra IA genérica?

Esse é um ponto que merece cuidado especial.

O guia do CFP orienta evitar a inserção de dados de pacientes em ferramentas de IA. Quando isso for realmente necessário, recomenda medidas como anonimização rigorosa, uso de soluções com condições adequadas de confidencialidade e bases privadas, além de atenção ao consentimento. O material também recomenda não inserir prontuários, nomes ou outros elementos identificáveis em sistemas desse tipo.

Na prática, portanto, copiar o prontuário completo de uma pessoa para um chatbot genérico e escrever:

“Analise este paciente e diga qual é o diagnóstico mais provável”

é uma utilização bastante diferente de:

“Revise a clareza deste parágrafo fictício sem alterar seu significado.”

Há dois problemas no primeiro caso.

O primeiro é o tratamento de informações extremamente sensíveis.

O segundo é a delegação de julgamento clínico.

Mesmo retirar o nome do paciente não resolve automaticamente o primeiro problema.

Uma descrição como:

“Mulher de 34 anos, professora da universidade X, perdeu o marido em determinado acidente ocorrido em uma cidade pequena…”

pode continuar permitindo identificação.

Isso é mais próximo de pseudonimização do que de verdadeira anonimização.


4. IA para resumir uma sessão: onde ela ajuda — e onde pode errar

Um dos usos mais interessantes da IA é transformar uma transcrição extensa em um material mais organizado.

Por exemplo, identificar:

  • temas discutidos;

  • acontecimentos relatados;

  • intervenções realizadas;

  • tarefas combinadas;

  • pontos que poderão ser retomados;

  • mudanças percebidas em relação às sessões anteriores.

Isso pode reduzir bastante o trabalho de reconstruir mentalmente uma sessão horas depois.

Mas o resumo deve ser entendido como uma primeira organização da informação, não como uma descrição incontestável do atendimento.

Modelos de IA podem:

  • omitir uma informação importante;

  • atribuir peso excessivo a uma fala secundária;

  • confundir quem disse determinada frase;

  • transformar possibilidade em certeza;

  • criar relações causais que não foram estabelecidas;

  • interpretar uma fala como sintoma;

  • apresentar uma inferência como se tivesse sido mencionada na sessão.

O CFP alerta justamente para o risco de respostas incorretas ou aparentemente convincentes produzidas por sistemas de IA e para a necessidade de supervisão humana qualificada.

Um exemplo simples

Imagine que durante uma sessão a pessoa diga:

“Eu fiquei pensando se talvez esteja deprimida. Minha irmã vive falando isso.”

Um resumo automático ruim poderia transformar isso em:

Paciente apresenta quadro depressivo.

Houve uma mudança importante.

A primeira frase registra uma fala da própria pessoa.

A segunda introduz uma conclusão clínica.

É justamente nesse tipo de transformação aparentemente pequena que a revisão profissional se torna indispensável.


5. O resumo da IA não deve ir automaticamente para o prontuário

Esse talvez seja um dos cuidados mais importantes para quem utiliza sistemas que oferecem integração entre gravação e prontuário.

Um fluxo como:

gravar → transcrever → resumir → salvar automaticamente como evolução

é conveniente.

Mas mistura duas coisas que deveriam permanecer separadas:

produção automática de informação e registro profissional.

O CFP deixa claro que a responsabilidade sobre documentos psicológicos permanece integralmente com o profissional e não pode ser transferida a máquinas ou softwares. Além disso, interpretações, conclusões e hipóteses clínicas devem ser elaboradas pelo psicólogo com base em seu conhecimento técnico e científico.

Um fluxo mais seguro é:

gravar → transcrever → gerar apoio para o registro → revisar → editar → profissional aprova → registrar.

A diferença parece pequena, mas muda completamente quem está produzindo o documento final.

6. Então como usar IA para ajudar no prontuário?

Pense na IA como uma assistente de organização, e não como autora do prontuário.

Ela pode ajudar a recuperar informações da sessão e estruturar um rascunho.

O profissional então decide:

  • o que é relevante registrar;

  • o que deve ser excluído;

  • se a informação está correta;

  • qual procedimento técnico foi realizado;

  • como descrever a evolução;

  • quais informações pertencem ao prontuário;

  • quais reflexões clínicas pertencem a outro tipo de registro.

O Manual do CFP recomenda que a evolução contenha a data do encontro, uma síntese da prestação do serviço e os procedimentos técnico-científicos adotados. A qualidade do registro não está relacionada simplesmente à quantidade de texto.

Exemplo prático

Imagine uma sessão de 50 minutos em que foram discutidos conflitos familiares, trabalho, culpa e dificuldade de estabelecer limites.

Uma transcrição poderia ter 7 mil ou 8 mil palavras.

Um resumo da IA talvez tenha vários parágrafos.

Mas o registro final poderia ser algo como:

Paciente relata aumento de conflitos familiares após assumir novas responsabilidades de cuidado, com dificuldade em estabelecer limites e aumento de sentimentos de culpa. Foram exploradas as situações antecedentes às respostas de esquiva e discutidas alternativas de comunicação mais assertiva. Combinado o monitoramento das situações em que apresenta dificuldade em recusar solicitações até o próximo encontro.

Não é uma ata da sessão.

É uma síntese técnica do processo.

Essa diferença continua sendo responsabilidade do psicólogo.


7. Transcrever tudo pode aumentar — e não reduzir — o risco de sigilo

Existe uma tentação compreensível quando passamos a ter ferramentas capazes de registrar tudo:

“Já que posso guardar, por que não guardar?”

Mas a lógica adequada para dados clínicos costuma ser justamente a inversa:

Se não preciso guardar, por que guardar?

Uma sessão pode incluir informações sobre:

  • familiares;

  • parceiros;

  • colegas de trabalho;

  • sexualidade;

  • acontecimentos traumáticos;

  • situações jurídicas;

  • saúde;

  • terceiros que sequer sabem que estão sendo mencionados.

Quanto maior o volume de informações armazenado, maior a quantidade de dados potencialmente expostos caso aconteça um incidente.

O próprio Manual do CFP alerta que registrar falas literais em excesso pode fragilizar o registro e aumentar sua vulnerabilidade em relação ao sigilo.

Isso sugere um princípio bastante útil para qualquer sistema de IA:


Guarde o necessário, não tudo o que a tecnologia permite guardar.


8. E o áudio? Precisa ficar armazenado?

Não necessariamente.

Gravar uma sessão para permitir a transcrição não significa automaticamente que o áudio precise permanecer guardado indefinidamente.

Na escolha da ferramenta, vale verificar se existe a possibilidade de:

áudio → processamento → transcrição/resumo → exclusão do áudio

quando a manutenção daquele arquivo não tiver uma finalidade profissional específica.

Isso segue um princípio importante de proteção de dados: minimizar tanto a quantidade de informações tratadas quanto o período em que permanecem disponíveis.

Além disso, o profissional deve saber exatamente quais materiais estão sendo preservados. Uma coisa é manter o registro psicológico previsto para acompanhamento do serviço. Outra é acumular centenas de horas de gravações de sessões porque o sistema nunca as remove.


9. Consentimento não transforma qualquer ferramenta em uma ferramenta adequada

Esse é outro equívoco possível.

Imagine que o paciente autorize a gravação.

Isso não elimina a responsabilidade do profissional de avaliar:

  • segurança;

  • confidencialidade;

  • finalidade;

  • forma de armazenamento;

  • condições de processamento;

  • adequação da plataforma.

O próprio posicionamento do CFP afirma que cabe ao psicólogo avaliar criticamente segurança, limites, riscos e vieses das ferramentas utilizadas.

Ou seja:

consentimento é necessário em determinadas utilizações, mas não funciona como autorização para práticas inseguras.


10. O paciente pode recusar a gravação?

Essa possibilidade precisa existir de maneira real.

Consentimento informado perde boa parte do sentido se a pessoa acredita que precisa aceitar a gravação para receber atendimento.

Na prática, é importante que exista uma alternativa.

Por exemplo:

“Eu utilizo uma ferramenta que pode gravar e transcrever a sessão para me auxiliar posteriormente na elaboração dos registros. O uso é opcional e não interfere no atendimento. Caso você prefira, podemos realizar a sessão normalmente sem gravação.”

Além de ser mais transparente, essa abordagem protege algo muito importante na clínica: a pessoa não precisa passar a sessão inteira se perguntando quem mais está ouvindo aquilo.


11. O uso da IA pode alterar a própria sessão

Existe um aspecto menos discutido, mas relevante.

A tecnologia não afeta apenas o que acontece depois da sessão.

Ela também pode modificar o que acontece durante.

Algumas pessoas podem se sentir mais livres sabendo que o profissional não precisa interromper constantemente a conversa para fazer anotações.

Outras podem se sentir menos confortáveis ao saber que existe uma gravação.

Não existe uma resposta universal.

Por isso, não basta obter uma assinatura no início do acompanhamento. Vale observar clinicamente como aquela tecnologia afeta a relação e manter espaço para que a pessoa mude de ideia.

A ferramenta deve favorecer o atendimento — e não fazer o atendimento se adaptar à ferramenta.


12. IA não deve decidir diagnóstico, risco ou conduta sozinha

Aqui o limite precisa ser mais firme.

Uma coisa é uma IA organizar:

“A paciente mencionou dificuldade para dormir em três momentos da sessão.”

Outra é concluir:

“A paciente apresenta transtorno de ansiedade generalizada.”

Da mesma forma, identificar que determinada fala contém referências a suicídio pode servir como um alerta complementar.

Mas decidir risco, necessidade de encaminhamento, manejo de crise ou conduta clínica exige avaliação contextual que não deve ser terceirizada.

O CFP ressalta que sistemas de IA não possuem compreensão, consciência ou julgamento ético e que decisões que envolvem julgamento profissional não devem ser realizadas autonomamente pela tecnologia.

Esse cuidado também vale para sugestões de intervenção.

Uma ferramenta pode ajudar a recuperar informações ou organizar possibilidades.

Quem conhece a pessoa, o contexto, a história terapêutica e as implicações de cada decisão continua sendo o profissional.


13. Cuidado com a “autoridade” do texto bem escrito

Talvez um dos riscos menos óbvios das IAs atuais seja justamente elas escreverem muito bem.

Um parágrafo organizado, técnico e seguro transmite sensação de precisão.

Mas forma e conteúdo são coisas diferentes.

Compare:

“Os relatos apresentados sugerem a presença de padrões persistentes de esquiva experiencial associados a dificuldades de regulação emocional.”

Parece perfeitamente plausível.

Mas a pergunta correta é:

de onde essa conclusão veio?

Ela está efetivamente sustentada pelo atendimento?

Ou a IA completou lacunas porque esse tipo de relação aparece com frequência nos textos com os quais foi treinada?

Quanto mais clínico parecer o texto produzido automaticamente, mais importante se torna a revisão.


14. Uma rotina segura para usar IA depois da sessão

Uma forma prática de organizar esse processo é pensar em cinco etapas.

1. Antes do atendimento

Defina exatamente:

  • o que será gravado;

  • por qual ferramenta;

  • com qual finalidade;

  • onde os dados serão processados;

  • por quanto tempo serão mantidos.

Quando houver gravação e transcrição, obtenha consentimento informado conforme as orientações aplicáveis.

2. Durante a sessão

Use a tecnologia da forma menos intrusiva possível.

Evite gravações paralelas ou cópias desnecessárias em dispositivos e serviços que não façam parte do fluxo planejado.

3. Depois da sessão

Utilize a transcrição ou o resumo como material de apoio.

Confira especialmente:

  • nomes;

  • datas;

  • medicamentos mencionados;

  • falas importantes;

  • acontecimentos;

  • pessoas citadas;

  • procedimentos realizados.

4. Produza o registro profissional

Selecione aquilo que realmente precisa constar no registro.

Diferencie:

o que o paciente disse

de

o que você concluiu clinicamente.

E diferencie ambos daquilo que simplesmente foi sugerido pela IA.

5. Só então finalize

Leia o registro como se tivesse sido escrito por outra pessoa.

Pergunte:

“Eu confirmo tecnicamente cada afirmação que está aqui?”

Se a resposta for sim, o documento deixa de ser apenas um texto produzido por uma ferramenta e passa a ser efetivamente um registro pelo qual o profissional pode responder.


16. O que a IA pode fazer bem na rotina clínica

Com os cuidados adequados, há vários usos bastante razoáveis.

Ela pode ajudar a:

  • transcrever uma sessão autorizada;

  • localizar rapidamente um trecho da conversa;

  • organizar temas discutidos;

  • produzir um primeiro resumo;

  • identificar tarefas combinadas durante a sessão;

  • melhorar a clareza de uma anotação;

  • organizar informações coletadas em entrevistas;

  • estruturar dados de escalas e instrumentos;

  • lembrar pontos que o profissional deseja retomar;

  • apoiar a elaboração do registro da sessão.

Esse tipo de uso se aproxima justamente da função de apoio e sistematização reconhecida pelo CFP.


17. O que não deveria ser simplesmente delegado à IA

Por outro lado, é prudente não entregar autonomamente à tecnologia decisões como:

  • estabelecer diagnóstico;

  • formular um caso;

  • concluir que determinado relato é verdadeiro ou falso;

  • avaliar risco de suicídio;

  • definir necessidade de encaminhamento;

  • escolher uma intervenção clínica;

  • interpretar resultados de avaliação sem supervisão;

  • decidir quais informações sensíveis devem constar de um documento;

  • produzir uma conclusão psicológica que o profissional não tenha avaliado;

  • emitir automaticamente um prontuário sem revisão.

A fronteira nem sempre será perfeitamente nítida.

Mas uma pergunta ajuda bastante:

Se essa conclusão estiver errada, eu conseguiria justificar tecnicamente por que ela foi registrada?

Se a resposta for “não, foi a IA que colocou”, há um problema.


18. IA pode economizar tempo sem transformar a clínica em automação

A discussão sobre inteligência artificial na Psicologia às vezes vai para dois extremos.

De um lado:

“Não deveríamos usar IA para nada.”

Do outro:

“Se a tecnologia consegue fazer, devemos automatizar.”

Nenhum dos dois responde muito bem ao problema real.

Há tarefas na rotina do psicólogo que consomem tempo sem necessariamente acrescentar qualidade clínica: reorganizar anotações, recuperar informações, formatar registros, transcrever áudio, conferir tarefas combinadas.

Se a tecnologia consegue reduzir esse trabalho, existe um benefício concreto.

O cuidado está em não atravessar silenciosamente a fronteira entre reduzir trabalho operacional e terceirizar raciocínio profissional.

Talvez essa seja a forma mais simples de pensar o uso ético da IA na Psicologia:

Automatize o que é operacional. Preserve como humano aquilo que exige julgamento clínico, responsabilidade e relação.


19. Um bom sistema de IA não deveria substituir o psicólogo — deveria devolver atenção a ele

Existe uma diferença importante entre usar tecnologia para fazer o profissional prestar menos atenção à sessão e usá-la justamente para que ele possa prestar mais atenção.

Quando bem implementada, uma ferramenta de transcrição pode reduzir a necessidade de dividir a atenção entre a pessoa e as anotações.

Um resumo pode ajudar a reconstruir a sessão sem depender apenas da memória no fim de um dia cheio.

Uma assistência à escrita pode diminuir o tempo necessário para organizar o registro.

Mas o produto final continua exigindo aquilo que nenhuma dessas ferramentas possui: conhecimento do caso, responsabilidade profissional, contexto e julgamento clínico.

Esse talvez seja o critério mais útil para avaliar qualquer nova funcionalidade de IA que apareça nos próximos anos:

ela está apoiando meu trabalho ou começando a decidir por mim?

Em resumo

Psicólogos podem utilizar inteligência artificial em sua prática profissional, inclusive como apoio à transcrição, organização de informações e elaboração de registros. O uso, porém, não elimina as responsabilidades éticas e legais relacionadas a sigilo, proteção de dados, consentimento e qualidade técnica.

Para transcrição de sessões, o cuidado precisa ser especialmente rigoroso: a pessoa atendida deve ser informada, o consentimento precisa ser adequado à finalidade e o profissional deve conhecer as condições de armazenamento e tratamento dos dados.

E, talvez mais importante: transcrição não é prontuário, resumo não é avaliação e texto produzido por IA não deixa de precisar do julgamento do psicólogo.

A tecnologia pode ajudar a lembrar, organizar e escrever.

A decisão sobre o que aquilo significa — e sobre o que deve constar do registro — continua sendo do profissional.

Como a Fluven trabalha com isso

Na Fluven, a inteligência artificial é utilizada para apoiar o trabalho do psicólogo, e não para substituir seu julgamento clínico.

A Fluven foi criada para ser simples desde o primeiro acesso, sem configurações complicadas ou curva de aprendizado longa. Você pode experimentar todos os recursos por 7 dias grátis e conhecer, na prática, como ela pode apoiar sua rotina clínica.

Recursos como transcrição e apoio à elaboração de registros foram pensados para reduzir o trabalho operacional que costuma ficar para depois das sessões, mantendo o profissional no controle do conteúdo que será efetivamente registrado.

A proposta é simples: usar tecnologia para que sobre mais atenção para aquilo que não deveria ser automatizado — o atendimento.

A Fluven foi criada para ser simples desde o primeiro acesso, sem configurações complicadas ou curva de aprendizado longa. Você pode experimentar todos os recursos por 7 dias grátis e conhecer, na prática, como ela pode apoiar sua rotina clínica.

Referências

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável. Brasília: CFP, 2025.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Nota de Posicionamento do Conselho Federal de Psicologia sobre Inteligência Artificial e Psicologia. Brasília: CFP, 2025.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos. Brasília: CFP, 2025.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP nº 001/2009. Dispõe sobre a obrigatoriedade do registro documental decorrente da prestação de serviços psicológicos.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP nº 006/2019. Institui regras para elaboração de documentos escritos produzidos pela psicóloga e pelo psicólogo no exercício profissional.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Resolução CFP nº 010/2005.

BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais — LGPD.

AUTORIDADE NACIONAL DE PROTEÇÃO DE DADOS. Guia Orientativo sobre Segurança da Informação para Agentes de Tratamento de Pequeno Porte. ANPD.

Sirlene Xavier

Psicóloga clinica

Psicóloga pós-graduada em Terapia Cognitivo-Comportamental e CEO da Fluven